Você quer viver para sempre?



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Dizem que “a morte é a única certeza da vida”. Mas será mesmo? Há inúmeros exemplos de certezas absolutas que se mostraram absurdas ao longo da história. E recentemente, cientistas, grandes pensadores e empresas como o Google vêm trabalhando para colocar em xeque a “única certeza da vida”. Eles realmente não aceitam a morte e estão lutando para prolongar o máximo suas vidas. A ciência já demonstrou que muitos hábitos e alguns medicamentos estendem a vida dos seres humanos. Muitos outros medicamentos e tratamentos já estão a caminho. Então por que precisamos aceitar viver somente 70 anos, quando há tantas coisas... [Leia mais...]




Peter Thiel está certo quanto a uma coisa




O bilionário excêntrico Peter Thiel tem um monte de ideias malucas, mas o seu compromisso de radicalizar a extensão da vida não é uma delas.

Sem dúvida, Thiel se apega a algumas ideias bastante desagradáveis. Um liberutópico e admirador da pseudo-intelectual Ayn Rand, o magnata da tecnologia acredita que liberdade e democracia são incompatíveis, e questiona a prudência de dar às mulheres o direito ao voto. Thiel diz que a educação superior é um desperdício de tempo, e repetidamente tem dito a jovens que abandonem a escola para que possam prosseguir com projetos empreendedores. Ele até pagou a alguns para fazer isso. Frustrado com o mundo real e com a maneira como ele funciona, Thiel investiu no Seasteading Institute, uma organização dedicada à criação de uma utopia anárquica em águas internacionais. Surpresa nenhuma, ele também é um ardente defensor de Donald Trump. E claro, ele acha legal processar empresas de comunicação quando elas escrevem coisas nada lisonjeiras sobre ele.

Ah, e ele quer viver para sempre.

Agora, enquanto boa parte da imprensa tradicional vai tentar desacreditar o magnata da tecnologia sobre esta questão aparentemente estranha, eu não sou um deles. Sobre este ponto, o homem está no caminho certo. A morte é realmente algo horrível, e é melhor que nós nos livremos dela mais cedo do que mais tarde. Também precisamos abrir mão da ideia de que não querer morrer seja um tanto louco ou desviante. Não querer morrer é, na verdade, uma das crenças mais racionais que uma pessoa pode ter.

Em 2014, quando questionado sobre suas metas mais ambiciosas para o futuro, Thiel disse a uma plateia na Venture Alpha West Conference que ele é "muito aficionado em tentar fazer algo para conseguir realmente algum progresso no fronte do antienvelhecimento e da longevidade", descrevendo o campo como "um fenômeno muito pouco estudado, e pouco investido". Em conversa recente com o Washington Post, ele disse "Eu sempre tive essa convicção de que a morte era algo terrível, terrível... Eu prefiro combatê-la".

Para esse fim, Thiel investiu milhões na Methuselah Foundation, um grupo de pesquisa dedicado a prolongar o tempo de vida humano com avanços em engenharia de tecidos, genômica, e medicina regenerativa. Chefiada pelo biogerontologista Aubrey de Grey, o grupo já dispendeu mais de US$ 4 milhões de dólares para apoiar a pesquisa nessa área. O próprio de Grey delineou um plano, chamado Estratégias de Engenharia para Senescência Insignificante, para parar e até mesmo reverter o processo de envelhecimento. A fundação Thiel também doou dinheiro a Cynthia Kenyon, uma pesquisadora antienvelhecimento da Universidade da Califórnia, em San Francisco. Na falta de avanços nesta área, Thiel também já assinou contrato para ser criogênicamente preservado, em caso de uma morte prematura.

Thiel não está sozinho no seu desejo de protelar a morte. Inspirado por avanços em genética, medicina regenerativa, biologia celular, e cibernética, um crescente número de pessoas estão pedindo um fim para o envelhecimento e a mortalidade. Envelhecer, afirmam esses autoproclamados imortalistas, é uma doença que pode e deveria ser parada. Eles argumentam que não é um processo inexorável, e que o corpo humano, como qualquer outra máquina, pode ser modificado e restaurada para uma antiga glória.

E, de fato, a ciência está começando a confirmar isso. Estamos aprendendo que envelhecer é um processo geneticamente programado, e que há coisas que podemos fazer para dramaticamente desacelerá-lo, desde o uso de avançadas "drogas senolíticas" e a destruição de células envelhecidas, a terapias de rejuvenescimento sanguíneo e mitocondrial. E pelo estudo de supercentenários, nós temos aprendido os pré-requisitos para uma vida longa e saudável.

Armados com essas e outras ferramentas, os doutores do futuro vão naturalmente prescrever essas terapias para estender o tempo de vida dos seus pacientes. Fazer o contrário seria uma violação daquele famoso juramento que eles fazem ao se graduar. Órgãos envelhecidos? Talvez seja hora de crescer alguns novos. Células não reproduzindo corretamente? Vamos substituí-las por mais novas. Células cerebrais falhando? Obtenha algum suplemento sintético.

De fato, essa velha ideia de que vamos eventualmente criar alguma espécie de pílula mágica para a longevidade é tolice; a extensão radical da vida virá na forma de múltiplas intervenções e procedimentos, e poucos irão questioná-los. Apenas aqueles cansados da vida vão abdicar dela. Eventualmente, a morte se tornará voluntária. Nós podemos até mesmo chegar num período em que vamos ter de lutar pelo nosso direito de morrer.

Tão importante quanto creditar a ciência, defensores da superlongevidade também afirmam ter legitimidade moral. A vida é boa, e a morte é ruim - isso resume bem, para os imortalistas. A ideia de que a morte é algo "natural" e um aspecto indelével da condição humana é rejeitada. Como J.R.R Tolkien disse, certa vez:

"Não existe tal coisa como uma morte natural. Nada que acontece ao homem pode ser natural, desde que sua presença coloca todo o mundo em questão. Todos os homens devem morrer, mas para todo homem sua morte é um acidente. E mesmo que ele saiba e consinta com ela, uma injustificável violação".

Sem dúvida, nós fomos condicionados a acreditar que a morte aos 20 é trágica, enquanto a morte aos 90 é natural. Mas se pudéssemos viver para mais de 10 mil anos, nós consideraríamos a morte de alguém aos 350 tão trágica quanto. A morte é também um incrível desperdício, para sempre aniquilando as memórias e as experiências de uma pessoa. E para aqueles que perderam alguém, uma coisa horrível com a qual lidar.

Envelhecer e morrer também são coisas incrivelmente caras. De acordo com S. Jay Olshansky, um professor da School of Public Health, da Universidade de Illinois, em Chicago, o risco de uma pessoa morrer dobra a cada sete anos, e as despesas necessárias para manter essas pessoas vivas continua a subir. Até 2030, Olshansky calcula que as despesas médicos só nos EUA atingirão os US$ 16 trilhões de dólares. Para protelar essa crise fiscal, ele diz que precisamos introduzir intervenções significativas para manter as pessoas vibrantes e saudáveis. Afinal de contas, a meta é estender o tempo de vida saudável, e reduzir as despesas médicas.

Uma observação que também pode ser feita é a de que a extensão da vida toca em questões de liberdades civis, liberdade pessoa, e escolha. Negar as pessoas o acesso a tecnologias de extensão da vida pode eventualmente ser inconstitucional e desnecessariamente cruel. Uma vez que essas intervenções passem a existir, a recusa em tratar os mais velhos poderia ser considerada como uma forma de gerontocídio. Não parece tão maluco quanto soa; o cientista-político Francis Fukuyama já argumentou que o governo tem o direito de dizer aos cidadãos que eles têm de morrer.

No que diz respeito à acessibilidade, não seria igualmente justo negar a grupos emergentes o acesso, levando em conta a desigualdade social. Hoje, não banimos tecnologias porque nem todas as pessoas podem tê-las. Em vez disso, deveríamos lutar para torná-las mais acessíveis, justas e universais.

A extensão radical da vida também irá trazer consequências sociais desejáveis, tais como um aumento da preocupação com a responsabilidade pessoal. Dada a expectativa de vida indefinida, podemos começar a se comportar de uma forma mais sustentável e preocupada com o meio ambiente, sabendo que vamos estar por aqui por mais alguns séculos. E em conjunto com outras formas de valorização humana, podemos começar a cultivar formas mais profundas de conhecimento e de sabedoria.

Sem dúvida, a extensão radical da vida irá apresentar uma série de problemas, mas nada que venha a ser tão extraordinário. Uma forma de gerontocracia pode surgir, na qual os idosos se recusem a abdicar de riqueza e poder, mas nós provavelmente vamos encontrar maneiras de nos adaptarmos. Da mesma forma, nós vamos ter que encontrar maneiras de conviver com nossos tatatatataranetos e as lacunas geracionais absurdas.

Nosso planeta, com seus 7.4 bilhões de pessoas, já está lidando com um problema de superpopulação. Para ser mais exato, não é o número absoluto de pessoas que é o problema - é a nossa marca global coletiva. No começo dessa semana, foi anunciado que a nossa civilização tinha consumido um ano inteiro de recursos naturais em apenas sete meses. Nós já estamos no caminho de uma catástrofe ambiental e social, não importa se a extensão radical da vida se torne real ou não. A meta é desenvolver tecnologias, forjar políticas, e mudar nossos hábitos de vida para acomodar uma população em crescimento. Soluções potenciais incluem novas fontes de energia, nanotecnologia molecular, megaestruturas habitáveis (no planeta e fora dele), e colonização espacial.

Igualmente, essa ideia de que ficaremos entediados com vidas radicalmente estendidas é estupendamente ridícula. Haverá tanto a fazer no futuro que nem sequer saberemos o que fazer conosco; se vamos aperfeiçoar todas as artes marciais, aprender todas as línguas da terra, caçar Pokémons virtuais em Marte, ou viver múltiplas vidas no ciberespaço. Se tudo isso falhar, poderemos simplesmente reconfigurar nossos cérebros para não nos entediarmos com a superlongevidade.

Algumas dessas ideias podem soar inquietantes e bizarras, mas estamos falando de uma transição extraordinária para a nossa espécie. Passamos toda nossa vida nos confrontando com nossa mortalidade, então quando alguém propõe que a morte seja algo que podemos eliminar, naturalmente haverá alguma rejeição. Eventualmente, essa dissonância cognitiva se transformará em aceitação. Os imoralistas de hoje, incluindo o repugnante Peter Thiel, só estão na linha de frente dessa inevitabilidade social e biológica. 

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