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Dizem que “a morte é a única certeza da vida”. Mas será mesmo? Há inúmeros exemplos de certezas absolutas que se mostraram absurdas ao longo da história. E recentemente, cientistas, grandes pensadores e empresas como o Google vêm trabalhando para colocar em xeque a “única certeza da vida”. Eles realmente não aceitam a morte e estão lutando para prolongar o máximo suas vidas. A ciência já demonstrou que muitos hábitos e alguns medicamentos estendem a vida dos seres humanos. Muitos outros medicamentos e tratamentos já estão a caminho. Então por que precisamos aceitar viver somente 70 anos, quando há tantas coisas... [Leia mais...]




Cientistas alistam cães na busca por respostas para a extensão da vida



Por Amy Harmon, para o New York Times

SEATTLE – Desde o último verão, quando a cadela de Lynn Gemmell foi introduzida nos testes de uma droga que tem mostrado um resultado significativo no prolongamento da vida de ratos de laboratório, ela tem sido alvo de intenso escrutínio entre os frequentadores de parques.

Para aqueles que insistem em dizer que Bela, de oito anos, voltou a ser um filhote – “Veja quão rápido ela pega a bolinha!” – Gemmell se faz de surda. Bela, uma mistura de Border Collie com pastor australiano, pode ter recebido um placebo, por um lado.
Mas a droga, rapamicina, que melhorou a saúde do coração e aparentemente retardou o aparecimento de certas doenças em ratos mais velhos, pode não funcionar tão magicamente em cães, por outro. Existe também uma chance de fazer mais mal do que bem. “Isso é apenas uma observação sobre efeitos colaterais em cães”, disse Gemmell aos bem-intencionados para com Bela.

Tecnicamente é verdade. Mas o teste também representa um novo horizonte ao testar uma proposição experimental para melhorar a saúde humana. Ao invés de procurar um tratamento para males individuais que vem com a idade, nós podemos fazer melhor, mirando na biologia que fundamenta o envelhecimento.

Enquanto as doenças que agora matam a maioria das pessoas nos países desenvolvidos - doença cardíaca, acidente vascular cerebral, Alzheimer, diabetes, câncer - têm diferentes causas imediatas, a idade é o principal fator de risco para todos eles. Isso significa que mesmo avanços nessas áreas, não importa quão vitais eles sejam para os indivíduos, renderiam, em média, mais quatro ou cinco anos de vida, segundo os epidemiologistas, e alguns deles provavelmente acompanhados por doenças.

Uma droga que retarda o envelhecimento, a lógica é, pode, ao invés disso, servir para retardar o aparecimento de diversas doenças de uma só vez. Um punhado de drogas testadas por laboratórios financiados pelo governo federal nos últimos anos pareceu aumentar o tempo de vida saudável dos ratos com a rapamicina - droga aprovada pela FDA, a ANVISA americana, para o tratamento de pacientes de transplante de órgãos e de alguns tipos de câncer, por ter provando ser a mais eficaz para tais objetivos.
Num estudo feito em 2014 pela empresa farmacêutica Novartis, a droga pareceu reforçar o sistema imunológico de pacientes mais velhos. E os primeiros resultados em cães em processo de envelhecimento sugerem que a rapamicina está os ajudando também, disse Matt Kaeberlein, um pesquisador da biologia do envelhecimento da Universidade de Washington, que lidera o estudo com um colega, Daniel Promislow.

Mas os cientistas que defendem o estudo da biologia básica do envelhecimento - chamada de gerociência - dizem que sua área recebe pouca atenção do sistema biomédico. E não foi loucura dos pesquisadores da Universidade de Washington pensar que a exposição da ideia de o envelhecimento poder ser retardado possa gerar apoio popular, além de novos dados.

"Muitos de nós na área da biologia do envelhecimento sentimos que ela é subfinanciada em relação ao impacto que ela poderia ter na saúde humana", disse Kaeberlein, que ajudou a pagar o estudo com os fundos que recebeu da universidade por recusar uma oferta de emprego. "Se o dono comum de um animal de estimação vir que há uma maneira de retardar significantemente o envelhecimento do seu animal, talvez isso comece a ter um impacto nas decisões políticas".

A ideia de que recursos podem ser melhor gastos tentando retardar o envelhecimento, em vez de curar doenças, atinge em cheio as maiores filantropias, sem falar na proposta da administração Obama de gastar US$1 bilhão de dólares em um tiro fatal contra o câncer. E muitos cientistas dizem que ainda falta sustentação para merecer mais investimento.

O Instituto Nacional de Saúde há muito tempo é organizado em torno de certas doenças, incluindo o Instituto Nacional do Câncer e o Instituto Nacional de Diabetes, Doenças Digestivas e Renais.

O Instituto Nacional do Envelhecimento existe, mas cerca de um terço da sua verba no ano passado foi direcionada exclusivamente para a pesquisa sobre a doença de Alzheimer, e seu Departamento de Biologia do Envelhecimento representa uma pequena fração da verba anual de US$30 bilhões do Instituto Nacional de Saúde. Isso, em parte, porque a área ainda está em desenvolvimento, segundo o diretor do INS, Francis Collins.

Eu seria resistente à ideia de que devêssemos subsídios do câncer e da doença de Alzheimer, onde existem drogas-alvos claros, e dizer "Nós vamos trabalhar em cima dessa hipótese agora", disse Collins. "Se você tivesse muito dinheiro na gerociência agora, seria impreciso fazer algo com ele que fosse cientificamente crível".

Pesquisadores da área, ao contrário, dizem que eles podem ter mais a mostrar, se puderem explicar ao Congresso e ao público por que a pesquisa básica sobre o envelhecimento pode ser útil.

"As pessoas entendem "meu parente morreu de um ataque cardíaco, então vou dar dinheiro a isso", diz James L. Kirklan, um pesquisador da Mayo Clinic. "É mais difícil compreender "meu parente era mais velho, isso o predispôs a ter um ataque cardíaco, então vou doar meu dinheiro à pesquisa sobre envelhecimento"".

Algumas empresas têm abraçado o desafio das drogas que retardam o envelhecimento. A Google criou a Calico (de California Life Co.) em 2013 com o objetivo de derrotar o envelhecimento. Uma startup chamada Unity disse que irá desenvolver drogas com base em uma nova pesquisa que sugere que retirar certas células de ratos mais velhos pode estender a estimativa de vida saudável. E um grupo de pesquisadores acadêmicos está tentando persuadir a FDA a reconhecer o envelhecimento como uma doença para a qual uma droga pode ser vendida, o que eles esperam gerar mais interesse das companhias farmacêuticas.

A agência recentemente deu sinal verde para a proposta de um teste de uma droga muito usada no tratamento contra o diabetes, a metformina, a fim de ver se ela pode retardar o aparecimento de outras doenças relacionadas à idade em adultos que tenham recebido o diagnóstico de ao menos uma dessas doenças, como um estudo sugere que a droga é capaz de fazer. Mas o grupo ainda precisa assegurar o financiamento. Uma das razões, segundo os pesquisadores, é a noção profundamente enraízada de que o envelhecimento é algo imutável.

"Quando saio e tento conseguir dinheiro para isso, a primeira coisa que as pessoas me dizem é "Ah, todo mundo está envelhecendo", diz Steven Austad, um pesquisador da Universidade do Alabama.

A expectativa de vida é inflexível?

Muitos de nós nutrem a impressão de que nós envelhecemos porque nossos corpos, assim como nossos carros, nossa mobília, nossa paciência, simplesmente se desgatam. Mas o melhor argumento de que a expectativa de vida não é algo programado, dizem os biólogos, é há muito evidente: os seres vivos envelhecem em taxas significantemente diferentes.

"Os esquilos no meu bairro têm uma expectativa de vida de 25 anos, mas eles parecem-se com ratos que vivem dois", disse Gary Ruvkun, um pioneiro da biologia do envelhecimento da Harvard Medical School. "Se você olhar para o que a natureza selecionou e permitiu, percebe que você pode ser capaz de colocar as mãos em várias alavancas que mudam as coisas".

Essa aspiração ganhou força nas décadas de 1990 e 2000, quando cientistas, armados de novas ferramentas da biologia molecular, se detiveram sobre as vias celulares complexas que regulam o tempo de vida em várias espécies. Ao remover genes que produziam certas proteínas, ou adicionando genes que produziam outras, os pesquisadores descobriram que eles poderiam significativamente estender as vidas de simples organismos de laboratório como leveduras em desenvolvimento, lombrigas e moscas.

"Não é simplesmente um desgaste, é um programa", Ruvkun disse. "A genética nos disse isso. Se você pode modulá-lo com algumas poucas perturbações, essa é a definição de um programa".

Uma vez que os genes não podem ser tão facilmente manipulados em humanos, foi significante que, em 2006, Kaeberlein e outros tenham demonstrado que a rapamicina, a droga agora sendo testada em cães, suprimira uma das proteínas mais importantes nas leveduras, resultando em um maior período de vida sem a remoção de sequer um gene. Sabe-se que a proteína está envolvida no crescimento celular. Mas como a sua supressão funciona em estender a vida ainda é incerto, levantando questões sobre potenciais e desconhecidos efeitos negativos.

E não ajuda a reputação da área que o que tenha emergido como uma esperança de alto-nível contra o envelhecimento, a amplificação de proteínas chamadas sirtuínas, ainda não tenha gerado resultado. Inicialmente creditadas como sendo ativadas pelo resveratrol, as sirtuínas aparentemente forneciam uma excelente desculpa na qual embeber. Mas a companhia farmacêutica GSK, que comprou uma empresa por US$720 milhões com a intenção de desenvolver uma droga similar ao resveratrol, reduziu seus esforços em 2013 depois de os resultados dos experimentos genéticos originais serem colocados em xeque. Um ano depois, uma - de apenas duas - das maiores fundações que estavam financiando a pesquisa sobre longevidade, parou de doar subsídios à área.

Além dos solavancos científicos padrões, os pesquisadores da biologia do envelhecimento dizem que a reputação de seu campo de atuação sofre com a associação a milagreiros vendendo cremes antienvelhecimento, hormônios e fontes da juventude, sem falar nos gostos de Dorian Gray, Voldemort e alguns lordes Sith. Esforços para prolongar a vida são com frequência vistos como egoístas e triviais.

"Parece bastante egocêntrico que, enquanto ainda temos malária e tuberculose, os ricos financiem as coisas para que eles vivam por mais tempo", Bill Gates, cuja filantropia foca na pobreza mundial, disse durante uma sessão no Reddit no ano passado, em resposta a uma pergunta sobre a Calico, uma derivada do Google.

Coleen Murphy, biologista molecular da Universidade de Princeton que estuda a idade reprodutiva nas mulheres, disse ter recebido um e-mail odioso a acusando de tentar superpopular a terra. Críticos da pesquisa em extensão da vida também se preocupam com o fato de que, em vez de aumentar o assim chamado "tempo de vida útil", que os pesquisadores dizem ser seu objetivo, a gerociência vai levar a humanidade a viver mais tempo em um estado debilitado.

Isso está acontecendo, com ou sem a pesquisa sobre longevidade, graças a avanços em saúde pública que têm permitido que a expectativa de vida aumente. Dois terços dos idosos americanos têm doenças crônicas múltiplas, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças, e em pouco mais de uma década, um quinto dos europeus e dos americanos terão 65 anos de idade ou mais.

Se você vai a um jantar e diz às pessoas que você está trabalhando em cima da longevidade, elas dizem, 'Ah, isso é terrível', disse Murphy. "Acho que se eles apenas compreendessem que é um meio de desacelerar todo o processo, em vez de lutar contra uma doença por vez, eles entenderiam por que nós estamos interessados nisso".

Envelhecimento em ratos e cães em anos

Cães envelhecem mais rápido do que humanos, e cães maiores envelhecem mais rápido do que os menores. Os 40 cães que participaram do teste com a rapamicina, que acabou de concluir sua fase piloto em Seattle, tinham de ter, ao menos, 6 anos de idade e pesar, ao menos, 18 kg.

Como Bela, a cadela de Lynn Gemmell, cujo colesterol estava alto, muitos deles apresentavam sinais do envelhecimento: pele flácida, focinho grisalho, rigidez das juntas. Também apresentavam esses sinais alguns dos seus donos.

"Como você pode ter certeza de que as pessoas vão dar isso aos seus cães e não tomá-las elas mesmas?". Gemmell, 58, brincou com Kaeberlein na sua primeira visita à clínica veterinária, onde Bela passou por um check-up e um ecocardiograma para medir a função cardíaca, um marcador que poderia possivelmente registrar uma melhora no decorrer das 10 semanas que ela tomaria a droga.

Coordenadora de pesquisa de testes clínicos em humanos em um hospital, Gemmell adotou Bela com 12 semanas de vida sem se dar conta de quanto tempo ela precisaria passar com ela. Agora divorciada com duas filhas adultas, Gemmell se mune de uma lanterna quando volta pra casa à noite, e leva Bela para passear com uma bolinha e uma coleira que brilham. "Eu queria que ela vivesse pra sempre", ela diz.

Ela não está sozinha. Mais de 1,500 donos de cães se inscreveram para participar do teste da rapamicina, que tem suas raízes numa série de estudos em ratos, o primeiro publicado em 2009. Feita de um tipo de bactéria do solo, a rapamicina estendeu a vida de leveduras, moscas e vermes em até 25%.

Mas no que provou ser um acidente de sorte, os pesquisadores responsáveis por testá-lo em ratos encontraram problemas na formulação para fácil consumo. Como resultado, os ratos tinham 20 meses de idade - o equivalente a 60 anos humanos - quando o teste começou. Que os ratos que sobreviveram por mais tempo tenham vivido cerca de 12% a mais do que os do grupo de controle foi a primeira indicação de que a droga poderia ser aplicada em idade mais avançada e ainda continuar efetiva.

Kaeberlin disse que, desde então, ele atingiu benefícios similares dando a droga a ratos de 20 meses de idade, por um período de apenas três meses. (O National Institute on Aging rejeitou seu pedido de financiamento para testar o tratamento no futuro). Ratos mais jovens, dados doses mais altas, viveram cerca de 25% a mais do que aqueles a quem não foi dada a droga, e ratos de idades e história genética variáveis demoraram a desenvolver alguns tipos de câncer, doença renal, obesidade e sintomas da doença de Alzheimer. Em um estudo, os seus corações funcionavam melhor por mais tempo.

"Se você fizer a extrapolação para as pessoas, provavelmente estamos falando de algumas décadas, com a expectativa de que aqueles anos vão ser gastos em relativa boa saúde", disse Kaeberling.

Ainda, as drogas que funcionam nos ratos com frequência falham em humanos. É igualmente difícil perguntar aos roedores quanto a sua qualidade de vida. As reações adversas, dependendo de dose e duração, incluem inflamação de garganta, catarata, resistência à insulina e, para machos, problemas com a função testicular. Ninguém sabe se as pessoas, que já vivem mais do que os ratos, veriam um aumento proporcional na longevidade.

E alguns pesquisadores dizem que haveria sérias preocupações no teste da rapamicina, ou de qualquer droga, em pessoas saudáveis apenas para desacelerar o envelhecimento. E se a droga aumentasse a vida para uns, e encurtasse para outros? Poderia alguém eticamente submeter uma pessoa saudável a um teste que pode, em verdade, encurtar sua vida?

"Não é tão simples quanto o câncer, onde os pacientes vão morrer de qualquer maneira se eles não receberem os remédios", disse Andrew Dillin, um pesquisador da biologia do envelhecimento na Universidade da Califórnia, Berkeley, que recentemente levantou as questões na Nature, uma revista científica.

Preocupações éticas de lado, tal teste levaria décadas. Mas o que os amantes dos cães há muito consideram fato triste que seus animais de estimação envelhecem sete vezes mais rápido do que eles, Kaeberlein sabia, seria um boom para um estudo de rapamicina que teria implicações para ambas as espécies. Dono de dois cães ele próprio, ele estava determinado a pedir dinheiro para a fase piloto do que ele e Promislow chamaram de Projeto de Envelhecimento Canino.

No mês passado, ele declarou em um encontro científico que nenhuma reação adversa significante foi observada nos cães, mesmo no pico das três doses. E comparados aos cães no grupo de controle, os corações daqueles tomando a droga bombeavam sangue com mais eficiência no final. Os pesquisadores gostariam de alistar 450 cães para um estudo mais abrangente, de cinco anos de duração, mas ainda não têm o dinheiro para isso.

Mesmo se o estudo fornecesse resultados positivos em todas as instâncias, um teste em humanos acarretaria riscos.

Kaeberlein, por si só, disse que eles valeriam a pena.

"Eu diria que deveríamos tolerar algum nível de risco, se a recompensa for um aumento de 20 a 30 por cento na longevidade saudável", disse. Se não fizermos nada, nós sabemos qual vai ser o resultado. Você vai ficar doente e vai morrer".

Da sua parte, Gemmell não conta com nada. Uma noite, quando ela voltou do trabalho para casa, ela estava pronta ler seu e-mail e tomar uma taça de vinho. Mas Bela a saudou como habitualmente, a bola na boca, pronta para brincar.

Por ora, disse, é dessa maneira que ambas planejam continuar jovens.


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