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Dizem que “a morte é a única certeza da vida”. Mas será mesmo? Há inúmeros exemplos de certezas absolutas que se mostraram absurdas ao longo da história. E recentemente, cientistas, grandes pensadores e empresas como o Google vêm trabalhando para colocar em xeque a “única certeza da vida”. Eles realmente não aceitam a morte e estão lutando para prolongar o máximo suas vidas. A ciência já demonstrou que muitos hábitos e alguns medicamentos estendem a vida dos seres humanos. Muitos outros medicamentos e tratamentos já estão a caminho. Então por que precisamos aceitar viver somente 70 anos, quando há tantas coisas... [Leia mais...]




O Segredo Antienvelhecimento da Natureza

Ecologistas encontram animais e plantas que desafiam a idade
Texto original por Hillary Rosner


Uma dúzia de anos atrás, Daniel Doak começou a arrastar-se pela tundra do Alaska carregando um recipiente com palitos de dente coloridos. Lá estava ele na fria Ladeira Norte, no topo do continente, para estudar a Silene acaulis, uma planta baixa e plana que explode em flores rosas no começo do verão.

As mudas da Silene acaulis são do "tamanho da cabeça de um alfinete”, Doak diz, e 20 anos podem se passar antes que elas fiquem muito maior. No entanto, Doak, um ecologista da Universidade do Colorado, diligentemente identificou, mapeou e mediu as plantas, usando os palitos de dente para marcar a localização das menores.

Todo verão ele retorna, e depois de todos esses anos de olhos forçados e joelhos machucados, ele agora tem dados de mais de 2,500 plantas no Ártico e milhares mais em outros lugares pelo globo, das Montanhas Rochosas aos Pirineus. (A Silene acaulis cresce numa vasta faixa das maiores latitudes e elevações do mundo). Tal informação levou Doak e seu colaborador, o ecologista William Morris, da Universidade Duke, a uma descoberta surpreendente: as plantas vivem por séculos. E essa descoberta está ajudando a dar forma a um campo emergente: a ciência de como a natureza envelhece.

Inicialmente, Doak simplesmente queria entender como organismos respondem a condições ambientais rigorosas, como as das temperaturas de inverno no Alaska. "Como uma espécie consegue viver", ele perguntava-se, "em um lugar onde é difícil se estabelecer e difícil viver?". Então Doak e Morris fizeram o registro de dados demográficos básicos, medindo coisas como o quão rápido as plantas crescem - e o quanto elas vivem. "Nós fazemos o equivalente ao que o Departamento de Recenseamento faz", diz Doak. "Nós perguntamos, 'Você está viva? Quão grande você é? Quantos filhos você tem?".

Por meio do estudo das plantas ano após ano, Doak mostrou que a Silene acaulis segue uma estratégia biológica conhecida como senescência negativa. Senescência é o termo científico para o que comumente pensamos como envelhecimento. Tudo o que envelhecimento realmente significa é tempo vivido. Para nós, não há separação entre a passagem de tempo do processo de declínio. Nós o vemos em nós mesmos: cabelos grisalhos, joelhos ruins, energia debilitada. Mas na senescência negativa, o risco de morte decai ao passo que o organismo fica mais velho.

Durante anos, biólogos acreditaram que essa estratégia era largamente impossível. Tudo o que sobrevive por um longo tempo, eles pensavam, vai eventualmente entrar num escorregador deteriorante em direção à morte. Uma combinação de dados de longo prazo e novas ferramentas computacionais está pintando uma quadro diferente: plantas e animais que permanecem saudáveis, e mesmo se reproduzem, por muito mais tempo do que qualquer um preveria. A morte pode ainda ser o seu destino, mas não representa o ponto final de declínio. Ela chega via catástrofe, ou por um capricho da natureza, ou como resultado de mudanças causadas pelos seres humanos ao meio-ambiente.

Doak e outros cientistas examinando o modo como várias espécies envelhecem descobriram que, em alguns casos, elas simplesmente não envelhecem. A evolução pode às vezes favorecer organismos que seguem um caminho diferente. "Claramente há maneiras pelas quais a seleção natural muda dramaticamente o modo como a senescência acontece", Doak diz. "Não parece tão difícil derrotar a senescência".

Questões de vida e morte

A conclusão de Doak teria parecido herética há alguns anos.

Por que as coisas vivas envelhecem é uma das questões mais vexatórias da biologia. Nas últimas décadas, biólogos têm aderido a um trio de teorias, todas as quais sustentam que a senescência é inescapável. Uma teoria afirma que organismos envelhecem por causa de mutações genéticas desenvolvidas que não são eliminadas pela seleção natural - uma doença, por exemplo, que aparece depois do seu auge de reprodução. Outros sustentam que o envelhecimento ocorre porque certas características que tornam você melhor para reproduzir podem também significar o seu fracasso. E de acordo com a terceira teoria, conforme os organismos envelhecem, eles se deterioram e devem gastar mais energia para reparar danos celulares - em detrimento de outras funções físicas essenciais.

Por anos cientistas têm brigado para provar qual teoria é a melhor, mas poucos duvidavam que, dentre as três, eles explicassem a evolução do envelhecimento.

Agora um novo ramo da ciência do envelhecimento desabrochou, e de uma parte do mundo que, estranhamente, foi excluída antes: a natureza. E seus primeiros resultados sugerem que aquelas teorias sustentadas por tanto tempo apenas contam parte da história. Bem recentemente, até uma década atrás, os cientistas sediados em laboratório que estudavam o envelhecimento assumiam que a senescência não era visível na natureza. Você não a veria na natureza selvagem, eles acreditavam, porque as realidades cruéis da natureza simplesmente não permitem que algo viva o bastante para decair. Mas anos de dados de estudos de longo-prazo feitos por Doak e outros cientistas examinando plantas, pássaros, mamíferos e fungos em campo mostram os defeitos nessas hipóteses.

Há um dogma na literatura - que é mais orientada à biologia celular do envelhecimento - que animais selvagens não realmente envelhecem", diz Daniel Nussey, um ecologista evolucionário da Universidade de Edimburgo que estuda o envelhecimento em ovelhas Soay numa remota ilha da Escócia. "Está absolutamente errado. Esse processo pode ser visto, e é moldado pela evolução".

De fato, sinais do envelhecimento natural estão por toda parte. As ovelhas selvagens de Nussey perderam vários quilos um ano antes de morrerem; cabras albinas das montanhas com idades acima de 8 ou 9 anos não suportam um tempo mais rigoroso; algumas plantas perdem a capacidade de sobreviverem à seca. Albatrozes mais velhos procuram comida em áreas diferentes das que procuravam quando mais jovens. Por que organismos envelhecem de maneira diferente - a biologia comparativa do envelhecimento - é uma fascinação crescente para os cientistas. "Nós estamos tentando entender o que é que motiva a variação nesse processo", Nussey diz.

Essa variação, aliás, inclui espécies que simplesmente não seguem regras estabelecidas. De volta a 2004, um time de cientistas olhou para a evidência emergente da ecologia e propôs que o envelhecimento não é inevitável de maneira nenhuma. Em um estudo controverso publicado no Theoretical Population Biology, eles escreveram que "algumas, e talvez várias, espécies mostram senescência negativa" - uma situação na qual a taxa de mortes cai ao passo que os anos passam.

Viva devagar, morra velho

Desde então, a evidência da senescência negativa foi-se acumulando.

No caso da Silene acaulis, a planta desenvolveu uma estratégia de crescimento vagaroso e deliberado. Doak acredita que ela gaste muito da sua energia primordial construindo uma raiz extremamente longa que a ajuda a garantir água e nutrientes mais tarde, enquanto retarda o crescimento da planta acima do solo. Na tundra em que a Silene acaulis vive, "é muito difícil se estabelecer", diz Doak. Mas uma vez que ela consegue, suas chances de sobreviver e eventualmente de se reproduzir são altas. Não há muita coisa que irá matar a Silene acaulis. A planta é tão plana e tão pegada ao solo, e suas folhas tão pequenas (têm menos de meia polegada de comprimento), que renas e carneiros-de-Dall têm dificuldade em comê-la.

Para Doak, faz sentido que a seleção natural aja, nesse caso, contra o envelhecimento. "Catástrofes aleatórias não vão matar você, e é valioso investir tempo em você mesmo em vez de investi-lo em descendência", ele diz. Ao invés de "viver rápido, morrer jovem", a estratégia da candelária está mais para "viva devagar, morra velha". Muito, muito velha.

Para alguns organismos, muito velho pode significar milênios. No alto das Montanhas Brancas, próximo à fronteira entre o estado da Califórnia e o de Nevada, vivem algumas das mais velhas árvores do mundo. Os seus troncos grossos e nodosos, suas mais velhas folhas, nascidas quando Kennedy era presidente, ainda estão lá, esses pinheiros eriçados têm aproximadamente 5.000 anos de idade. Viver cinco milênios é uma proeza e tanto, mas o que é ainda mais surpreendente é que essas árvores não mostram nenhum sinal de declínio. Elas provavelmente são mais capazes de sobreviver a estresse ambiental do que suas colegas mais jovens, e elas continuam a se reproduzir numa taxa regular. Seu crescimento comedido permite que elas construam madeiras extraduráveis que resistem a apodrecimento, seca e raios. Em outras palavras, nesse caso, a seleção natural parece favorecer inteiramente o evitar da senescência.

Mas as plantas não são os únicos organismos a desafiar o processo de envelhecimento. Estudos com tartarugas e lagartos também demonstraram senescência negativa. Um estudo de longo-prazo com tartarugas-de-caixa no Missouri descobriu que os animais continuavam a se reproduzir bem ainda aos seus 70 anos.

No mundo dos mamíferos, ratos-toupeiras-pelados são os roedores com maior longevidade. Eles podem atingir até 30 anos de idade em cativeiro. Cientistas descobriram que fêmeas reprodutoras não mostram nenhuma queda da fecundidade, mesmo na sua terceira década de vida", de acordo com um estudo publicado em 2008, no Journal of Comparative Physiology. Faz sentido, diz Doak: "Eles vivem no subsolo, em uma ambiente de recursos escassos. Eles vivem de forma cooperativa, o que significa que sua única chance de se reproduzir é depois de você ter vivido por um tempo e saído para o estrato social". A seleção natural nesse cenário favorece indivíduos que vivem mais tempo.

Uma nova ameaça

Nos últimos anos, a pesquisa de Doak sobre a Silene acaulis mostrou mais do que só a evidência de senescência negativa. Ele também encontrou sinais de que o aquecimento global pode exercer uma influência tangível sobre as probabilidades de morte. O acompanhamento rigoroso das candelárias de musgo do Alaska ao longo dos anos revela que o que mais provavelmente mata as plantas hoje é o clima. "Nos invernos em que faz bastante frio, mas há períodos quentes, as plantas perdem o manto de neve que as recobrem", explica Doak. Elas sobrevivem pelo equivalente à queimadura por congelamento; agora, elas morrem por liofilização, por desidratação à frio. "Temos visto mais e mais disso ao longo do nosso estudo", ele diz.

Enquanto o aquecimento global representa um obstáculo para as plantas, o próprio Doak se depara com um desafio mais existencial. "É muito difícil", ele admite, "mostrar que a senescência nunca ocorre". Provar conclusivamente que algo não envelhece requereria por si só a imortalidade humana. E, infelizmente, a senescência negativa em humanos permanece vaga.


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