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Dizem que “a morte é a única certeza da vida”. Mas será mesmo? Há inúmeros exemplos de certezas absolutas que se mostraram absurdas ao longo da história. E recentemente, cientistas, grandes pensadores e empresas como o Google vêm trabalhando para colocar em xeque a “única certeza da vida”. Eles realmente não aceitam a morte e estão lutando para prolongar o máximo suas vidas. A ciência já demonstrou que muitos hábitos e alguns medicamentos estendem a vida dos seres humanos. Muitos outros medicamentos e tratamentos já estão a caminho. Então por que precisamos aceitar viver somente 70 anos, quando há tantas coisas... [Leia mais...]




Pesquisadores estudam três promissores tratamentos antienvelhecimento



Alguns pesquisadores acreditam que em breve serão capazes de retardar ou mesmo parar o relógio biológico – ao menos por um tempo

A maioria dos idosos norte-americanos vive seus últimos anos de vida com ao menos uma ou duas doenças crônicas, como artrite, diabetes, problemas cardiovasculares e derrame. Quanto mais tempo seus relógios biológicos avançam, com mais doenças incapacitantes eles têm de lidar. Médicos e companhias farmacêuticas tradicionalmente tratam cada uma dessas doenças ao passo que elas aparecem. Mas um pequeno grupo de cientistas começa a defender uma abordagem nova e audaciosa. Eles pensam ser possível parar ou mesmo reverter o cronômetro interno do corpo; assim, as doenças aparecerão mais tarde ou nem mesmo chegarão.

Estudos com centenários sugerem que a façanha é alcançável. A maioria dessas pessoas vive tanto assim porque, de alguma maneira, elas evitaram grande parte das doenças que atingem outros indivíduos na casa dos 70 e 80 anos, diz Nir Barzilai, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Envelhecimento da Albert Einstein College of Medicine. Nem mesmo a longevidade inabitual de centenários resulta de um declínio no fim da vida que dura mais do que o de outra pessoa. Na verdade, Barzilai aponta, pesquisa em centenas de “super idosos” sugere exatamente o contrário. Para essas pessoas, as doenças geralmente começam mais tarde e chegam mais próximas do final de suas vidas. “Elas vivem, vivem, vivem e, um dia, morrem”, ele diz.

Pesquisadores já desenvolveram várias técnicas para prolongar o tempo de vida de fungos, vermes, moscas, ratos e mesmo macacos. Adaptá-las aos seres humanos parece ser o próximo passo lógico. “Há um consenso emergente de que é hora de pegar o que aprendemos com a pesquisa sobre envelhecimento e começar a traduzi-lo para ajudar pessoas”, diz Brian Kennedy, CEO e presidente do Instituto Buck de Pesquisa sobre Envelhecimento, um grupo de pesquisa independente em Novato, Califórnia.

Atrasar o processo de envelhecimento ainda que em poucos anos poderia trazer enormes benefícios sociais, uma vez que as populações ao redor do mundo ficam cada vez mais velhas. O Departamento de Recenseamento dos Estados Unidos estima que um em cada cinco americanos vai ter mais de 65 anos de idade em 2030 – acima dos um em cada sete em 2014. Em 2013, estimadas 44 milhões de pessoas em todo o mundo sofriam de demência. É esperado que esse número salte para, aproximadamente, 76 milhões de pessoas em 2030, e 135 milhões em 2050 – sem pessoas mais jovens o suficiente, e capazes, para tomar conta delas.

Dentre o punhado de abordagens que os pesquisadores têm estudado, três se destacam. Ainda incerto: se os potenciais benefícios pesam mais do que os riscos dos tratamentos.

Evidência

Claro que, para determinar conclusivamente se um tratamento funciona, os pesquisadores necessitam de uma definição de envelhecimento e de uma maneira de medir o processo. Eles não as têm. Uma célula de rim dividida ontem tem um dia de idade, ou a idade da pessoa em quem ela reside? Ainda assim, pesquisas realizadas na década passada ofereceram vários sinais de que os aspectos prejudiciais do envelhecimento – sejam lá como forem definidos – podem ser retardados.

Em um estudo de 2005, Thomas Rando, diretor do Centro Paul F. Glenn de Biologia do Envelhecimento, na Universidade de Stanford, mostrou que um rato idoso cuja corrente sanguínea foi cirurgicamente ligada à de um rato jovem recuperou suas capacidades juvenis de cicatrização. De alguma forma, as células-tronco do roedor mais velho, que são responsáveis ​​pela substituição de suas células danificadas, tornaram-se mais eficazes em dar origem a um novo tecido. Desde então, Amy Wagers, bióloga da Universidade de Harvard, encontrou uma proteína no sangue, chamada de GDF11, que pode ter contribuído para a cicatrização mais rápida. Suas experiências, publicadas na Science em 2014, encontraram maior quantidade da proteína em ratos mais jovens do que em mais velhos; quando injetada nos ratos mais idosos, a GDF11 mostrou restaurar a estrutura juvenil e a força de músculos. No entanto, um novo estudo, publicado no Cell Metabolism, coloca essa questão em dúvida: sugere que a GDF11 aumenta com a idade (podendo até inibir a restauração muscular) e que algum outro fator deve fazer as células agirem como se fossem mais jovens.

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Mólecula de Metformina
A segunda abordagem consiste em examinar cerca de 20 medicamentos e suplementos nutricionais existentes, em um nível de detalhe que nunca antes foi possível, para ver se eles podem realmente afetar o processo de envelhecimento. Por exemplo, pesquisadores da Universidade de Cardiff, no País de Gales, e seus colegas, relataram em 2014 que os pacientes com diabetes tipo 2 que tomaram a droga metformina viviam, em média, 15 por cento a mais do que um grupo de pessoas saudáveis ​​que não sofrem com o distúrbio metabólico, mas que eram semelhantes em quase todos os outros aspectos. Os cientistas especulam que a metformina interfere com um processo de envelhecimento normal, denominado glicação, em que a glicose se combina com proteínas e outras moléculas importantes, impedindo o seu funcionamento normal. A descoberta sobre a metformina é particularmente notável porque as pessoas que têm diabetes, ainda que controlado, normalmente têm uma expectativa de vida um pouco mais curta em comparação a pessoas saudáveis.

Enquanto isso, num estudo com 218 adultos, publicado no ano passado, na Science Translational Medicine, pesquisadores da companhia farmacêutica Novartis mostraram que um composto chamado everolimus, que é quimicamente semelhante à rapamicina (um medicamento usado para evitar a rejeição do rim em transplantes), melhorou a eficácia da vacina contra a gripe em pessoas com mais de 65 anos.

Conforme as pessoas envelhecem, seus sistemas imunológicos não dão uma resposta tão forte ao vírus inativado na vacina como antes; assim, as pessoas mais velhas são mais propensas a ficarem doentes se encontrarem, mais tarde, um vírus real da gripe. Os testes mostraram que os pacientes do estudo que receberam everolimus tinham uma concentração mais elevada de anticorpos de combate aos germes no sangue do que os seus homólogos não tratados. Pesquisadores interpretaram este achado como um sinal de que a droga tinha rejuvenescido os sistemas imunológicos dos indivíduos.

Tal como acontece com qualquer medicamento, efeitos colaterais foram um problema. Os pacientes tratados mostravam estar mais propensos a desenvolver úlceras na boca, o que pode limitar a utilidade estendida da medicação para o tratamento do envelhecimento. O custo pode ser outro fator; o everolimus, que foi aprovado pelo U.S. Food and Drug Administration (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos da América, órgão semelhante à Anvisa) por suas propriedades de combate ao câncer, custa mais de US$ 7.000 por mês em doses adequadas para a doença. Ainda não se sabe: quanto custaria o everolimus e por quanto tempo seu uso seria necessário, se usado como uma droga antienvelhecimento.

No entanto, os resultados sustentam a ideia de que o envelhecimento pode ser retardado. Com efeito, o everolimus e outras drogas similares à rapamicina mostraram aumentar drasticamente o tempo de vida dos ratinhos, prevenir doenças como o câncer, e reverter alterações relacionadas à idade no sangue, no fígado, no metabolismo e no sistema imunológico.

Uma terceira abordagem, completamente diferente, envolve dieta. Foi mostrado há muito tempo que restringir o consumo de calorias ajuda os ratos a viverem mais tempo. Se limitar a ingestão de alimentos (sem causar desnutrição) pode beneficiar os seres humanos, também não é algo tão claro. Por um lado, muito poucas pessoas podem ou querem manter tais dietas de baixa caloria pelas décadas necessárias para provar definitivamente se esta abordagem funciona. Mas pode acontecer que tais medidas drásticas sejam desnecessárias. Valter Longo, diretor do Instituto de Longevidade da University of Southern California, mostrou que ele pode estender o tempo de vida de ratos simplesmente limitando sua comida em dias alternados ou ao reduzir a quantidade de proteína que consomem. Tal jejum intermitente pode vir a ser mais palatável para as pessoas, embora seus benefícios permaneçam sem comprovação.

Ressalvas

Viver mais pode vir com reveses. Fazer as células velhas tornarem-se jovens novamente significa que elas vão começar a dividir-se novamente. A divisão celular controlada é igual a juventude; a divisão descontrolada das células é igual ao câncer. Por ora, no entanto, os cientistas não têm certeza se eles conseguem fazer um sem o outro.

Descobrir o momento certo para o tratamento também é complicado. Se o objetivo é prevenir diversas doenças associadas ao envelhecimento, deve-se começar as terapias antienvelhecimento quando a primeira doença der sinais? A segunda? "Uma vez doente, é mais difícil recompor-se. Vai ser mais fácil manter as pessoas saudáveis​​", diz Kennedy. Então, provavelmente, faz mais sentido começar o tratamento anos mais cedo, durante uma meia-idade saudável. Mas a investigação necessária para comprovar essa suposição levaria décadas.

Se várias doenças podem ser atrasadas, a próxima pergunta óbvia é por quanto tempo. James Kirkland, que dirige a Mayo Clinic, do Robert and Arlene Kogod Center on Aging, em Rochester, Minnesota, diz que vai levar pelo menos mais 20 anos de estudo para responder a essa pergunta. Os cientistas já conseguiram estender em oito vezes o ciclo de vida de vermes e aumentaram a vida de ratos de laboratório de três anos de idade para mais um ano. Esses avanços permitiriam que uma pessoa de 80 anos de idade pudesse viver cinco ou seis séculos, ou mesmo 30 anos a mais? Ou lhes dariam apenas mais um ano de vida? A extensão da vida em humanos tende a ser mais modesta do que em leveduras, vermes, moscas e ratos, diz Rando. Uma pesquisa anterior sugeriu que criaturas de ordem inferior beneficiam-se ao máximo com os esforços despendidos à longevidade – com as leveduras, por exemplo, apresentando maior benefício em experimentos com restrição calórica do que mamíferos. "Quanto mais perto você chega dos seres humanos, menor o efeito" na expectativa de vida, diz ele. E um benefício de que magnitude seria necessário para justificar que alguém tome – e pague – por um tratamento como esse? "Você toma uma droga durante toda a sua vida com a esperança de viver 4 por cento ou 7 por cento a mais?" Rando pergunta.

O que os pesquisadores antienvelhecimento fazem – se fazem alguma coisa - para tentar retardar o próprio envelhecimento? A meia dúzia de cientistas entrevistados para este artigo disse fazer esforços conjuntos para estender o próprio tempo de vida. Um se sentia grato pelo diagnóstico de pré-diabetes, que significou uma prescrição legítima de metformina. A pesquisa tem se tornado tão sólida, diz Kennedy, que ele está tendo dificuldades para convencer-se a não tomar alguns medicamentos ao invés de tomá-los.
Todos os especialistas dizem que tentam viver uma vida saudável, para além de seus empregos de alta pressão. Eles tentam dormir oito horas por dia, comer quantidades moderadas de alimentos nutritivos e fazer exercícios com frequência. Nenhum deles fuma. A maioria dos americanos, infelizmente, não segue esses hábitos saudáveis. A grande ironia seria descobrir que a pílula não é, no final, mais eficaz do que os hábitos saudáveis ​​que nós já ignoramos.


Texto original de Karen Weintraub, jornalista freelancer nas áreas de Ciência e Saúde e atua em Cambridge, Massachusetts. Escreve regularmente para o The Boston Globe, o USA Today e o The New York Times.

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