Você quer viver para sempre?



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Dizem que “a morte é a única certeza da vida”. Mas será mesmo? Há inúmeros exemplos de certezas absolutas que se mostraram absurdas ao longo da história. E recentemente, cientistas, grandes pensadores e empresas como o Google vêm trabalhando para colocar em xeque a “única certeza da vida”. Eles realmente não aceitam a morte e estão lutando para prolongar o máximo suas vidas. A ciência já demonstrou que muitos hábitos e alguns medicamentos estendem a vida dos seres humanos. Muitos outros medicamentos e tratamentos já estão a caminho. Então por que precisamos aceitar viver somente 70 anos, quando há tantas coisas... [Leia mais...]




Vale do Silício tenta tornar humanos imortais - e encontra algum sucesso

Peter Thiel, cofundador do PayPal, fala durante entrevista ao Bloomberg Studio 1.0, em São Francisco, em agosto de 2014

Peter Thiel, o bilionário cofundador do PayPal, planeja viver até os 120 anos. Comparado com outros bilionários da tecnologia, ele não parece particularmente ambicioso. Dmitry Itskov, o “chefão” da internet russa, diz que a sua meta é viver até os 10,000; Larry Ellison, cofundador do Oracle, acha a noção de aceitar a mortalidade “incompreensível”, e Sergey Brin, cofundador do Google, espera um dia “curar a morte”.

Esses titãs da tecnologia não estão sendo ridículos, nem mesmo vangloriosos; suas buscas têm base num tipo de ciência real, emergente que poderia mudar para sempre o que nós conhecemos sobre vida e morte. É difícil acreditar, porém, uma vez que a busca pela imortalidade é antiga e cheia de tentativas catastróficas. Por volta do ano 200 a.C., o primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, matou-se acidentalmente ao tentar viver para sempre; ele foi envenenado depois de ingerir pílulas de mercúrio que supostamente deveriam prevenir a mortalidade.

Séculos mais tarde, a busca pela vida eterna não foi muito mais segura: em 1492, o Papa Inocente VIII morreu após realizar transfusões com o sangue de três rapazes saudáveis, cuja juventude ele acreditava poder absorver. Pouco mais próximo da era moderna, em 1868, nos EUA, o político Leonard Jones, do Kentucky, concorreu à presidência sob a ideia de que ele alcançaria a imortalidade por meio da oração e do jejum – e poderia oferecer seus segredos ao público para enganar a morte. Mais tarde, naquele mesmo ano, Jones morreu em decorrência de uma pneumonia.

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Sergey Brin, cofundador da Google, usa um Google Glass em Nova York, em setembro de 2012

Mas o precedente histórico não dissuadiu alguns dos maiores nomes do Vale do Silício. Thiel, por exemplo, doeu $ 3.5 milhões de dólares à Fundação Methuselah. Aubrey de Grey, cofundador da Methuselah, diz que a principal iniciativa de pesquisa sem fins-lucrativos da fundação, a SENS (Estratégias para Engenharia de Senescência Negligível, em português), tem como objetivo encontrar drogas que curem sete tipos de danos relacionados ao envelhecimento: “Perda de células, divisão celular excessiva, morte celular inadequada, detritos dentro de células, detritos fora de células, mutações em mitocôndrias, e cruzamento de ligações de matriz extracelular... A ideia é que o corpo humano, sendo uma máquina, tem uma estrutura que determina todos os aspectos do seu funcionamento, incluindo a chance de ruir a qualquer hora; então, se nós pudermos restaurar essa estrutura – em níveis molecular e celular – nós restauraremos o funcionamento também, dessa maneira nós teremos rejuvenescido o corpo de modo abrangente”.

Mas a SENS, que tem um orçamento anual de $5 milhões de dólares, é ínfima comparada à iniciativa liderada por Brin, o Projeto Calico, tentativa do Google para “curar a morte”, que planeja injetar bilhões numa sociedade com a gigante farmacêutica AbbVie. A Google é notoriamente secreta, mas há rumores de que a empresa desenvolve uma droga que imitaria o foxo3, um gene associado a uma excepcional longevidade.

Há também a Fundação Glenn de Pesquisa Médica, a vovó das iniciativas modernas de antienvelhecimento, iniciada pelo ousado capitalista Paul F. Glenn em 1965. Desde 2007, a fundação distribui anualmente os “Prêmios Glenn”, bolsas de $60 mil dólares para pesquisadores independentes que produzem trabalhos promissores sobre o envelhecimento. A Fundação Glenn também trabalha para impulsionar iniciativas antienvelhecimento dentro de grandes instituições (“Começou em Harvard, depois nós procuramos o MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts, depois o Instituto Salk e por último a Clínica Mayo”, Mark R. Collins, porta-voz da Fundação Glenn, explica), e investe $1 milhão de dólares ao ano em bolsas por meio da Federação Americana para Pesquisa sobre Envelhecimento, uma fundação de caridade voltada a doenças relacionadas à idade.

A Fundação Glenn também trabalha diretamente com a Fundação Médica Ellison, uma instituição muito mais recente (fundada em 1997). O principal projeto da Ellison doa milhares de dólares todos os anos para estudantes que propõem-se a desenvolver pesquisas e remédios para o envelhecimento. A decisão de financiar a pesquisa independente – em oposição a criar programas internos grandiosos – pode estar compensando. Projetos de pesquisa relativamente modestos financiados por Ellison e Glenn parecem estar desenvolvendo meios verificáveis de retardar o envelhecimento – em ratos de laboratório. A pergunta tentadora: podem esses resultados laboratoriais serem reproduzidos em humanos?

O envelhecimento em marcha à ré

Em 1956, o gerontologista Clive M. McCay fez um experimento um tanto macabro no campus da Universidade Cornell, norte do Estado de Nova York: ele costurou os flancos de dois camundongos vivos a fim de ligar suas correntes-sanguíneas. No par que McCay alinhavou, um rato era vivaz, saudável e jovem; o outro era velho e em relativa má-forma. Com suas correntes-sanguíneas conectadas, o rato mais velho parecia rejuvenescer, ficando mais saudável e mais jovem ao passo que o experimento prosseguia. O mais jovem, no entanto, envelheceu prematuramente.

À época, muito pouco era compreendido sobre a composição do sangue. Os experimentos de McCay eram fascinantes, mas um pouco sem saída; então ele voltou seu foco para a restrição calórica, e seus experimentos o tornaram eventualmente famoso, enquanto seu ingênuo trabalho com o sangue, em grande parte, definhou.

Avancemos 48 anos até 2004. Amy Wagers, do Departamento de Células-Tronco e Biologia Regenerativa da Universidade Harvard, repetiu os experimentos de flancos alinhavados feitos por McCay para ver se conseguia reproduzir seus resultados. Funcionou. Então Wagers – em parte financiada por Ellison e Glenn – decidiu tentar isolar proteínas individuais no sangue dos camundongos a fim de ver o que causava os assombrosos efeitos.

Ela descobriu que uma proteína chamada GDF11, comum no sangue de jovens ratos, mas esparsa nos sistemas de roedores mais velhos, causava grande parte do “envelhecimento em marcha à ré” dos ratos com mais idade. Na corrente-sanguínea, a GDF11 é responsável por manter as células-tronco vivas; quando os níveis de GDF11 decaem, como acontece no envelhecimento, as células-tronco (que são responsáveis pela regeneração dos tecidos) perdem força, machucados curam-se mais vagarosamente e o processo de envelhecimento passa a tomar conta. Mas mesmo em corpos muito velhos com pouca GDF11 dentro deles, as células-tronco nunca somem – elas apenas tornam-se dormentes ao passo que a GDF11 diminui. Injetar sangue jovem, com seus altos níveis de GDF11, em ratos mais velhos pareceu retomar aquelas células-tronco dormentes, fazendo com que os roedores de mais idade “envelhecessem em marcha à ré” uma vez que começavam a produzir tecidos saudáveis, vitais, associados à juventude. O trabalho é “incrivelmente promissor”, diz Collins.

Enquanto isso, no MD Anderson Cancer Center – um dos maiores centros do planeta de tratamento e pesquisa contra o câncer – um dos estudantes sêniores sobre envelhecimento pela Fundação Médica Ellison também tem feito experimentos a fim de encontrar meios que previnam camundongos de envelhecer. O interesse do doutor Ronald DePinho é pelos telômeros, estruturas que se fixam nas pontas dos cromossomos como bainhas de plástico no fim dos cadarços. Em corpos jovens, uma enzima chamada telomerase mantém os telômeros saudáveis e estáveis; em corpos mais velhos, níveis de telomerase caem, os telômeros se encurtam, e os cromossomos começam a desfazer-se. Parecia que esses cromossomos em ruínas eram responsáveis por alguns dos efeitos físicos do envelhecimento, e DePinho queria descobrir como.

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Eleanor Hammer, cujo marido, David, caiu e fraturou o fêmur enquanto ela estava fora de casa, espera pelo elevador no edifício onde mora, em São Francisco - Julho/2014

Sua equipe modificou geneticamente ratos cuja saída de telomerase poderia ser alternada e descobriu que no estado “final”, onde não havia telomerase nenhuma, os ratos envelheciam prematuramente. “Nós os conduzimos a um ponto onde eles tornaram-se equivalentes a um ser humano de 90 anos de idade”, ele diz, “com cérebro encolhido, cognição enfraquecida, infertilidade, ossos finos, perda de cabelo, etc”.

Então DePinho e seus colegas alternaram a telomerase de volta – e o que ele viu foi incrível. “Os órgãos começaram a se restaurar sozinhos”, ele conta. “O cérebro aumentou de tamanho, a cognição melhorou, a fertilidade foi restabelecida, os cabelos voltaram a apresentar um brilho saudável, e todos os demais problemas que nós vimos nos animais foram aliviados”. Dar telomerase a animais deficientes dela não somente interrompeu o processo de envelhecimento – tal como a GDF11, pareceu tornar os animais mais jovens.

Pode uma ou outra dessas descobertas, ou podem ambas serem usadas para criar uma fonte da juventude ao estilo da de Ponce de Leon? “Nós não fizemos nenhum estudo sobre a longevidade desses animais, então não sabemos se isso teria um efeito sobre o seu tempo de vida. Mas nós achamos que afetaria a saúde de alguém – no que diz respeito ao número de anos que você vive sem uma doença significante”, diz Wagers. Estudos preliminares parecem promissores. Wagers conta que um colega tem pesquisado uma proteína que ela descreve como sendo a versão da GDF11 em moscas. “Quando ele dá mais dessa proteína para as moscas, elas vivem mais. E se ele a retira, elas vivem por um período de tempo menor.”

Há uma (grande) advertência aqui. A telomerase está relacionada tanto à prevenção como à progressão do câncer. Células que envelhecem e carecem de telomerase têm mais probabilidade de tornarem-se cancerosas; quando células mais velhas se replicam, seus cromossomos “em ruínas”, desprotegidos da telomerase, com frequência dão origem a mutações causadoras de câncer. E uma vez que células tornam-se cancerosas, seus níveis de telomerase aumentam, permitindo que as células-mutantes se espalhem e se multipliquem incontrolavelmente. Médicos que tratam pacientes com câncer frequentemente trabalham para privar essas células da telomerase – e muitos temem que inundar o corpo com telomerase possa contribuir com o desenvolvimento do câncer. Em outras palavras, o caminho que pode nos levar a viver mais pode nos matar.

DePinho e outros acreditam que uma terapia com telomerase pode reduzir a incidência de câncer – tornando os cromossomos menos prováveis de desfazerem-se. E embora cientistas como Irina M. Conboy, de Berkeley, Universidade da Califórnia, temem que a GDF11, ao promover novo crescimento celular, possa aumentar a incidência de câncer, o cauteloso otimismo de Wagers reflete o de DePinho: ela diz não haver evidências de que a GDF11 cause maiores incidências de doenças letais. Ainda, ela diz, mais experimentos devem ser feitos. Nem ela nem DePinho acreditam que suas pesquisas devam alcançar a fase de testes em humanos num futuro próximo.

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Larry Ellison, CEO da Oracle, em seu discurso de abertura na Oracle OpenWorld, em São Francisco, em setembro de 2008

Mas com descobertas como as de Wagers e DePinho promovendo uma erupção de excitamento científico, a ideia de que poderíamos viver mais – não alguns poucos anos a mais, mas talvez um século ou mesmo centenas de anos – torna-se de repente um dos mais estimulantes e controversos tópicos do século que chega. “O que isso significa para a longevidade deve ser definido cuidadosamente, claro, porque com tamanho desenvolvimento vai haver uma grande diferença entre quanto as pessoas têm vivido até agora e quanto esperam viver”, diz de Grey. Se passarmos a viver uma média de 400 anos em vez de 80, nós podemos ter de reescrever muitas das histórias que contamos a nós mesmos sobre como a vida – e a morte – funcionam.

De acordo com Wagers, se a morte puder ser revertida, ao invés do vagaroso, certo declínio à senescência ao qual estamos acostumados, nós podemos simplesmente viver e viver e continuar vivendo, como jovens humanos adultos e aparentemente saudáveis, até que algum órgão ou outro falhe catastroficamente. Isso cruelmente contradiz o futuro distópico imaginado por, por exemplo, Gregg Easterbrook, no ano passado, em seu artigo “O que acontece se todos nós vivermos até os 100?”, na The Atlantic. Easterbrook e outros propõem um futuro no qual o tempo de vida vai continuar a se expandir, mas a qualidade da saúde não, e os mais velhos vão viver doentes por décadas e sugar todo o dinheiro da economia. Na versão de Wagers, pelo contrário, todos permanecem saudáveis até morrerem – desse modo talvez não precise haver uma idade para se aposentar, e a economia continue a crescer e crescer. Mas talvez essa seja uma receita para um outro tipo de distopia: uma na qual nós trabalhamos e trabalhamos e trabalhamos e nunca paramos de trabalhar por 384 anos, até o dia que morremos.

Imprima seu novo fígado

Mas talvez, no futuro, nós não precisemos nos preocupar com falha orgânica. Para todas aquelas vezes em que não houver órgão de sobra, haverá cópias clonadas, mesmo crescidas em laboratórios e impressas em 3D: nós já imprimimos fígados e rins, transformamos células da pele em células-tronco e células-tronco em órgãos, e estamos redefinindo o significado de fatalidade, graças a um procedimento chamado ressuscitação salina fria. Repor o sangue de um corpo que está morrendo por uma solução salina fria pode diminuir a temperatura corporal e colocar o paciente num estado suspenso de animação. E uma vez que o paciente estiver nesse estado, médicos podem reparar um punhado de coisas que, de outra maneira, podem ser fatais: ferimentos a bala ou a faca, hemorragias e falhas orgânicas – especialmente se houver na sala de emergência provisões de sobra de órgãos clonados à disposição.

Aos nossos sensos atuais, há algo um pouco medonho nesse paradigma: viver para sempre, ou pelo menos por um longo tempo, em uma juventude estática, eterna, com excursões por salas de emergência ao passo que adquirimos mais idade, para periodicamente substituirmos órgãos falhos. De acordo com um estudo da Pfizer, em 2012, quando falamos de envelhecimento, nossos maiores medos são “ficar dependente” e “sentir dores”. Isso pode ser substituído em nossa imaginação cultural pelo medo da juventude eterna que leva a uma repentina, surpreendente morte – e se o seu coração, com 200 anos de idade, de repente falha quando você estiver num lugar em que não há hospital por perto? O medo do corpo no futuro pode ser bastante diferente do que é hoje, mas vai ser medo do mesmo jeito.

Talvez a solução seja substituir corpos – esses barcos pouco confiáveis, infestado de problemas! – por completo. Essa é a meta do mais ambicioso investimento bilionário em imortalidade deles todos, a “Iniciativa 2045”, de Itskov. Fundada no começo de 2011, a iniciativa já agrupou um número impressionante de experts em especialidades que vão da robótica e interfaces neurais à criação de órgãos artificiais. O objetivo deles: substituir nossos atuais invólucros de carne por avatares robóticos ou holográficos até o ano de (você adivinhou!) 2045.

De certas maneiras, o objetivo da Iniciativa 2045 não é tão ridículo quanto parece. Avatares robóticos teleoperados existem, embora até o momento eles sejam mais novidade do que uma escolha de vida. Itskov acredita que, ao passo que os avatares teleoperados tornarem-se mais ajustados, “trabalhos com um alto risco para a vida e a saúde humanas, como os do bombeiro, do policial, do primeiro-socorrista, do mineiro, etc., vão desaparecer”. Eventualmente, diz Itskov, esses avatares teleoperados vão ser “superiores ao corpo biológico em termos de habilidades”, assim iluminando uma era de avatares de crescente popularidade.

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O bilionário russo, Dmitry Itskov, participa do Global Future 2045 Congress, no Lincoln Center, em Nova York, em 2013

Mas mesmo se esses avatares robóticos ficam mais baratos e experienciam uma repentina ascensão em uso, a consciência ainda fica presa ao nosso carnal, bagunçado cérebro – e até aqui, ninguém ainda fez progresso em transferi-la para um meio mais durável.

Isso não significa dizer que ninguém esteja tentando. A gigante tecnológica Intel planeja ter um computador “exascale” – um computador que pode operar na mesma velocidade do cérebro humano – até 2018. E em agosto de 2013, pesquisadores do Japão e da Alemanha utilizaram o supercomputador japonês “K” para simular 1% da atividade cerebral por um segundo. Pode não soar muito para tanta agitação, mas com máquinas “exascale” no horizonte, é com certeza um sinal do que vem por aí. Markus Diesmann, um dos cientistas envolvidos no experimento com o supercomputador K, disse ao The Daily Telegraph, em 2014, “Se computadores petascale como o computador K são capazes de representar 1% da rede de um cérebro humano hoje, então nós sabemos que simular todo o cérebro em nível de suas células nervosas e suas sinapses vai ser possível com computadores “exascale” – esperançosamente disponível dentro da próxima década”.

A juventude está cansada dos mais velhos

Mas se nós atingirmos a imortalidade por meio de robôs, injeções ou pacotes de proteínas, uma profunda e perturbadora questão permanece: nós realmente queremos viver para sempre? Se sim, por quê?

Itskov diz ser impulsionado pela frustração. Um homem de muitos hobbies, o bilionário russo pratica judô, levantamento de peso, mergulho, tiro – “mas toda vez que eu alcanço certos resultados em um novo tipo de esporte ou hobby, eu percebo que, se eu quiser conseguir resultados sérios, tenho de fazer dessa atividade o foco da minha vida e sacrificar alguma outra coisa que não é menos interessante”. Esse dilema, ele diz, o mantém constantemente alerta de quão curta é a vida. “Por toda diversidade de oportunidades que a vida nos dá, há tão pouco que conseguimos descobrir e fazer”. Por isso, Itskov tem um incentivo para a Iniciativa 2045: “Quando eu for bem-sucedido na realização desse mega-projeto, então finalmente terei 10,000 anos para numerosos hobbies”.

Para outros bilionários, uma vida curta não parece terrível com a calamidade que o envelhecimento promete: o vagaroso declínio e a morte que a maioria de nós aceita como inevitáveis. Para Ellison, a frustração com a deterioração do corpo é pessoal: “Eu perdi a minha mãe para o câncer, e qualquer um que já assistiu alguém sofrer por conta dessa doença... bom, a vida não pode ser mais horrorosa pra eles”, ele contou ao The Guardian, em 2001, quando seu interesse em curas para o envelhecimento foi pela primeira vez ressentido. Para outros, como Thiel, é a recusa geral de mesmo pensar em impedir a morte que é frustrante. “A maneira como nós psicologicamente lidamos com o envelhecimento é por meio de uma combinação de aceitação e negação”, ele declarou, durante uma conferência no Venture Alpha West 2014. “A aceitação é: ‘vai acontecer, não há nada que possamos fazer quanto a isso’. A negação é: não vai acontecer comigo”.

Pergunte aos éticos sobre a imortalidade, porém, e a questão começa a parecer menos heroica. Paul Root Wolpe, diretor do Centro de Ética da Universidade Emory, argumenta que talvez nós devêssemos prestar mais atenção a como os mais velhos são tratados hoje antes de pensar em estender a vida ainda mais. “Quando você escuta pessoas que são a favor da extensão da vida conversarem sobre a grande fonte de sabedoria, experiência e perspectiva que você criaria ao aumentar a longevidade, bom, nós temos muitas pessoas entre os 70 e os 90 anos na sociedade agora, e nós não fazemos nada para tentar aprender com elas”, ele diz. “Então eu não acredito nesse argumento”. Pelo contrário, diz Wolpe, “nós já dobramos a longevidade média humana, e o que isso criou na sociedade moderna é um culto à juventude”.

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Homem suíço, sem-teto, descansa em uma cama do abrigo Richemont - Fevereiro/2014

Os mais velhos, enquanto isso, são tratados como detritos. Entre 8 e 10 por cento dos idosos americanos sofreram abusos no ano passado, de acordo com o Centro Nacional sobre Abuso ao Idoso (NCEA), e para cada caso de abuso registrado, o NCEA estima que entre 14 e 24 outros não sejam reportados. Um estudo conduzido pela Universidade DeMontfort descobriu que 61% dos idosos acreditam que a sociedade os veja como fardos, enquanto 57% pensam que a mídia encoraja a ideia de que os mais velhos são um problema para a sociedade. Só um terço sente que sua contribuição para a sociedade é devidamente reconhecida.

Ainda, Wolpe admite que a busca pela felicidade pode em essência envolver a busca por mais tempo para ser feliz. O objetivo, ele diz, deveria ser procurar “maneiras mais saudáveis de viver enquanto envelhecemos... descobrir como reduzimos os aspectos deteriorantes da idade. Como mantermos as pessoas mais saudáveis, por mais tempo, e aumentarmos a quantidade de tempo que elas têm para apreciar e aproveitar a vida?”. Mas nossa sociedade deveria estar preparada para isso; “se no processo de tornar isso possível nós aumentarmos a longevidade, então tudo bem”, ele diz.

Talvez a questão mais preocupante que surge com a possibilidade de ter milhões (e até bilhões) de multicentenários correndo pela Terra é se o planeta é capaz de suportar esse tipo de crescimento. Projeções atuais sugerem que a população mundial vai subir dos 7 bilhões de hoje para cerca de 9 bilhões em 2050 – ponto no qual deve mais ou menos se nivelar. E preocupações abundantes já têm sido levantadas sobre o que todas essas bilhões de pessoas vão fazer para trabalhar, sem mencionar se elas vão dispor de água potável suficiente para beber e a comida necessária para viver saudavelmente. Mas essas previsões não consideram a possibilidade de que nós paremos de morrer. Se pararmos, a próxima geração de empreendedores inovadores na área da tecnologia da saúde vai encarar, talvez, um desafio ainda maior: remodelar o planeta para acomodar sua população maciça de humanos 2.0.

Artigo de Betsy Isaacson, originalmente publicado em Newsweek.

1 comentários:

  1. A imortalidade humana será a vitória humanidade ou de uma espécie mais inteligente que a nossa? O homo sapiens será imortal ou substituido por uma espécie resultante de uma inteligência artificial?

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